Foi divulgado pela ONU no começo deste ano que agora o mundo já tem mais pessoas acima de 65 anos do que tem crianças entre 0 e 4 anos de idade. São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos, diz a ONU.

Este fato lembra um filme lançado em 2006 – Filhos da Esperança, que prevê um mundo apocalíptico onde acontece uma epidemia de infertilidade total, onde por 18 anos não nascem mais bebês no planeta.
O filme que tem cenas belas e fortíssimas nos oferece a imagem de um mundo assombrado pela ameaça da extinção e pela depressão como consequência do vazio de uma existência sem herdeiros do seu legado.
Estrelado por atores do porte de Clive Owen e Julianne Moore, e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, o filme conseguiu prever um cenário mundial assombroso ao qual estamos lentamente se aproximando, por uma série de motivos.

A queda das nossas taxas de renovação populacional e o consequente envelhecimento da população mundial pode ter relações com a onda conservadora em todo o mundo que vem acontecendo. Esta onda pode ser simplesmente a entrada da geração baby boomer na terceira idade e o seu efeito demográfico, e sócio econômico.
A geração conhecida por baby boomer é de fato uma onda demográfica e de reposição populacional que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e que agora chega à terceira idade, sendo portanto beneficiária de fundos de previdência públicos e privados. E foi seguida de duas outras gerações que não mantiveram o mesmo índice de renovação, produzindo assim um vale de taxa de natalidade que fez a base da pirâmide estreitar. Estas foram as gerações X, Y (millenials) e Z.
Portanto, o momento que estamos pode significar o solstício de inverno de uma civilização que entra agora num momento de declínio de seu crescimento e expansão. Um movimento que pode significar a sua queda, por uma longa e agonizante decadência ou um colapso repentino como foi o crash da bolsa de 1929. E demarca uma nova realidade em que a base desta pirâmide já se encontra mais estreita que o topo.

Isto significa que o número de jovens, que podem trabalhar para sustentar os idosos, estão numa baixa histórica enquanto o número de idosos estão numa alta recorde. E como se não bastasse, o número de jovens em situação de desemprego no mundo hoje também é mais alto do que nas décadas passadas, consequência ainda da quebra da bolsa de 2008, que abalou as economias da América do Norte e Europa em uma longa recessão cujos fundos de pensão, sempre pressionados por metas agressivas de rendimento, frequentemente apostam em indústrias com impactos ecológicos controversos, ou numa especulação imobiliária que por sua vez está limitando progressivamente o acesso das novas gerações à casa própria, por estarem presos ao financiamento estudantil (cuja bolha é estimada em 1,4 trilhões), ao mesmo tempo que crescem o número de habitantes sem teto. A mesma fórmula que produziu a crise de 2008, da qual os banqueiros foram salvos pelo governo do democrata Barack Obama.
Este alinhamento de circunstâncias configura uma situação de perigo desta pirâmide cair, ou o cenário perfeito para que esta pirâmide gire e se inverta. O que também chamamos de revolução, como já vimos acontecer em outros momentos da história.
As revoluções dos tempos
Para compreendermos bem o papel financeiro dos filhos na família, precisamos lembrar de como era o mundo há alguns séculos, antes de existirem bancos e fundos de pensão.

Se olharmos para as famílias como estrutura, vemos que elas eram muito maiores do que são hoje, poucas décadas atrás. Provavelmente, se você observar a sua própria árvore genealógica na época dos seus pais, avós ou bisavós, verá que as famílias antigamente eram muito maiores, chegando às vezes a ter até 10 filhos.
Mas não precisamos ir tão longe no passado para observar isso.

Em toda região rural no mundo também encontramos este mesmo padrão. Seja na região rural brasileira ou dos Estados Unidos, mas este ainda é um paradigma vigente em países como a Índia, que por isso mesmo ainda sofrem com o descontrole de sua superpopulação.

O motivo disso é que ao longo de toda a história ter crianças sempre significou um sinal de prosperidade e investimento em previdência, dentro de qualquer família. Seja ela uma família de camponeses pobres, ou uma família de monarcas.
Para estas, em especial, gerar herdeiros era uma necessidade estratégica de sobrevivência política, por que ter um herdeiro legítimo era garantia de uma sucessão de poder sem guerras.
Talvez por isso Nicolau Maquiavel tenha escolhido nomear sua obra de O Príncipe. Por que nesta época, o futuro das pessoas dependia unicamente de uma pessoa que era o príncipe e herdeiro e que portanto precisava de toda a sabedoria e orientação que pudesse receber para promover um governo profícuo para o seu povo.
Só que gerar herdeiros para as famílias nobres europeias não era uma tarefa tão simples como era para qualquer outra família de camponeses.
Com seus casamentos arranjados as famílias de nobres selavam pactos políticos, acordos diplomáticos e sociedades entre famílias detentoras de posses, a fim de manter suas posses e seu status.

No entanto, esta seleção artificial de seus parceiros para reprodução, restrita à um pequeno número de famílias com posses e linhagem, forçava estas famílias a celebrarem casamentos entre parentes muito próximos como primos. E isto tinha um indesejável efeito colateral de gerar descendentes a cada geração mais frágeis, física ou mentalmente, para herdar patrimônios, a cada geração maiores.
Isto provavelmente teve uma influência grande sobre a decadência da nobreza europeia e sua superação pela burguesia, o que eclodiu de uma histórica revolução chamada Revolução Francesa.

Na antiguidade, o mesmo erro levou a civilização européia à decadência quando o imperador romano Marco Aurélio deixou como herdeiro seu filho Commodus, que não tinha qualquer experiência militar ou política para administrar um império com aquele alcance.
Então é quase impossível subestimar o quão crítica é a importância da sucessão de poder dentro de uma organização. Seja ela um império, uma empresa com capital na bolsa, ou uma família. E quanto mais uma organização se ergue acima da média, mais dificuldades ela tem de gerar estes herdeiros, obedecendo uma lei óbvia: tudo que sobe desce.
Por duas vezes a elite européia viu sua decadência acontecer como efeito desse mesmo problema.
Agora, no começo do século XXI, estamos assistindo a mesma elite burguesa que decapitou a nobreza se sentindo ameaçada pela alta taxa de natalidade que as famílias de imigrantes em seu território possuem.

Segundo o primeiro ministro da Hungria, Viktor Orbán, a maior questão deste momento histórico é se no futuro a Europa continuará pertencendo aos europeus. Pois calcula-se que até 2050, devido à decrescente taxa de reposição que as famílias europeias possuem, o número de descendentes de árabes vivendo na Europa vai superar o número de descendentes de europeus.
Novamente, a mesma situação que levou a nobreza à decadência está se repetindo, mas por motivos diferentes.
Enquanto naquela vez a nobreza foi vítima de suas próprias estratégias de seleção artificial na produção de seus descendentes, desta vez a elite burguesa européia se encontra ameaçada pelo próprio sucesso de suas estratégias de sobrevivência financeira que lhe ergueram acima dos demais povos do mundo.
Conforme acumularam capitais, estes países passaram a ter mais capital do que trabalho disponíveis nos seus mercados internos. Isto fez com que a mão de obra para serviços laborais encarecer encarecendo também os custos para criar os filhos.
Quem já viu quanto ganha uma babá em países como Alemanha, Suíça, Itália, Japão ou Canadá, pode entender por que as mulheres nestes países vem adiando a hora de ter filhos, tendo cada vez menos filhos como consequência.
Já as mulheres árabes, cujo paradigma cultural ainda está mais próximo do paradigma feudal de família e finanças, ficam em casa gerando descendentes, mesmo que morando na Europa.
A sociedade filiárquica
Este cenário nos permite visualizar uma inevitável realidade num futuro não tão distante: um dia os filhos e não mais os pais e mães serão os chefes da sociedade e das famílias.

Isto por que se os métodos educacionais continuarem como são hoje, com custos sempre crescentes, o número de bebês continuará ficando cada vez menor que o número de idosos e por efeito da lei de oferta e procura, o respeito aos idosos será substituído pelo desprezo aos idosos e culto aos jovens, pois a eles pertence o futuro e assim representam o propósito existencial de suas famílias e sociedades. Este é o cenário mais sombrio que se assemelha de fato ao futuro descrito no filme Filhos da Esperança.
Mas há também uma possibilidade otimista advinda desta situação: a revolução dos métodos de administração, que hoje ainda funcionam no paradigma da burocracia, para uma nova administração baseada em jogos, ou Ludocracia.


Isso permitiria a inclusão dos jovens mais cedo na população economicamente ativa reduzindo drasticamente os custos para a sua formação e iniciação profissional.
Algumas das maiores empresas de tecnologia cotadas na bolsa foram fundadas por estudantes que abandonaram a faculdade para empreender. Por que então esperar tanto tempo para introduzir o jovem no empreendedorismo? Por que não utilizar de instrumentos pedagógicos para começar esta introdução no mundo do empreendedorismo mais cedo?
Hoje isso não é apenas possível mas também incrível: são inúmeros os jogos, simuladores, plataformas e tecnologias lúdicas que podem ser empregadas no empreendedorismo além de configurarem ferramentas educativas.

Video-games, apps, tabuleiros, baralhos, são várias as ferramentas que podem ser empregadas na educação empreendedora de jovens e crianças, além de ferramentas de interação entre crianças e adultos.
Muito mais do que educar jovens a pensar e agir de modo empreendedor, elas também podem educar seus pais a pensar de modo inovador e reciclar seus conhecimentos. A reaprender a aprender, revivendo a sua infância de novo e melhor, redescobrindo a vida.
Se isso for possível, a família moderna pode poupar vários anos de investimento em educação para profissionalizar os filhos, para entrar no mercado de trabalho. Mas mais do que isso, também pode fertilizar a imaginação do adulto para também desempenhar melhor suas profissões, turbinadas pela imaginação e curiosidade infantis juntos com as habilidades e competências de adulto.
Isto permitiria o crescimento da renda familiar junto com o crescimento dos núcleos familiares, e pouparia os pais de trabalharem tanto ou de fazer dívidas ou hipotecar a casa para pagar os estudos de um único herdeiro e também antecipar o retorno deste investimento, dando fôlego para estas famílias voltarem a crescer suas bases e com isso as sociedades também, enquanto se democratiza o acesso à uma educação empreendedora e se resolve mais cedo o problema da previdência dos idosos ao antecipar também sua terceira idade financeira.
Mas seja qual for o caso, no cenário otimista ou pessimista, as famílias do futuro serão cada vez mais dirigidas pelas gerações mais jovens. O que é bom por que por definição, eles são a evolução.
